sexta-feira, outubro 13, 2006

O RECORTE

Lembro-me que na época dos atentados de 11 de setembro de 2001 alguns especialistas em cinema afirmaram que Hollywood levaria séculos para fazer filmes a respeito desta tragédia. Talvez os séculos estejam passando mais rápido. No entanto, acho mais fácil acreditar que tais entendidos em cinema erraram em suas avaliações. Apenas cinco anos após o ocorrido, estamos sendo varridos por uma leva de filmes inspirados nos lamentáveis eventos que chocaram o mundo naquele fatídico dia.

Um destes filmes é As Torres Gêmeas (World Trade Center), do polêmico diretor Oliver Stone. Primeiramente, devemos ressaltar a dificuldade que qualquer cineasta enfrentaria ao tratar deste tema. Os fatos são ainda muito recentes. Os familiares das vítimas estão atentos e podem se sentir ofendidos com qualquer ousadia dos responsáveis pela produção do filme. Stone caminhou num terreno muito irregular, escorregadio e cheio de armadilhas. Possivelmente por este motivo, ele tenha deixado as polêmicas e teorias conspiratórias de lado e optado por um recorte mais seguro e confortável nesta obra.

O diretor centrou o seu foco no drama de dois personagens presos sob os escombros das torres do World Trade Center e no sofrimento das suas famílias. Ao optar por este recorte tão limitado dentro de tantas possibilidades temáticas que a tragédia suscita, Stone fugiu de polêmicas e debates que ainda são tabus na sociedade americana. Covardia? Seria fácil para mim afirmar que faltou coragem ao cineasta e que isto compromete totalmente a validade da obra. Sim, seria fácil, mas também seria leviano. Por isso, deixo este julgamento para vocês que assistiram ou ainda assistirão ao filme. Prefiro acreditar que ele poderia ter optado por um recorte mais amplo, mas a sua opção por um foco mais particularista não anula a relevância deste filme muito bem realizado.

Talvez uma das maiores qualidades da película seja o clima absurdamente claustrofóbico no qual o espectador se vê ao acompanhar o sofrimento daqueles dois policiais, presos no verdadeiro inferno real. Não houve atenuantes para garantir mais conforto ao público. Somos jogados naquele pesadelo junto com os personagens, nos compadecemos da sua dor, tanto física quanto emocional. Ansiamos por sair daquela situação mais do que os próprios personagens. Neste aspecto, Stone acertou a mão, não deixando dúvidas em relação ao seu talento atrás das câmeras.

Na minha modesta visão, Nicolas Cage está em um de seus melhores momentos. A construção sóbria, desprovida de glamour, de seu personagem, o sargento John McLoughlin, é um dos trunfos do filme, colaborando para a verossimilhança da trama. A economia de gestos, quando estes são possíveis, a parcimônia com a qual usa a expressividade do rosto e da própria voz são louváveis. O ator constrói um homem real. Um tipo caladão, que não gosta de se expressar e se expor. Soterrado também pela rotina, principalmente na parte sentimental de sua vida.

Parece que neste filme, Stone não quer ser a grande estrela. Ironicamente, este fato abre caminho para que seu talento como diretor se torne mais evidente. Logo no início do filme, há uma seqüência que mostra a cidade de Nova Iorque amanhecendo. Nunca tinha visto um diretor captar com tanta sensibilidade o clima de uma metrópole despertando para mais um dia rotineiro de trabalho. Imediatamente me identifiquei com aquelas pessoas imersas em sua rotina, caminhando tranqüilamente para seus já conhecidos destinos. Lembrei-me do meu próprio espírito, na hora em que me dirigi para meu trabalho naquele mesmo dia. Instintivamente pensei nas pequenas tragédias que podem estar nos esperando em cada esquina, na vida louca das grandes cidades modernas. Pensei em como um espírito entorpecido pela rotina reagiria a tragédias desta magnitude. Mas, ao mesmo tempo, havia algo de reconfortante naquele amanhecer. Talvez o pequeno conforto que se revela no fim da película. Mesmo numa tragédia que venha a te deixar perplexo e desorientado, sempre haverá uma mão fraterna a te ajudar apenas por saber que aquilo é a coisa certa a se fazer.

9 Comments:

  • Grande Evandro,
    Não tenho nada a acrescentar à sua bela resenha. Vi o filme, sem maiores empolgações. Ressaltei a cidade amanhecendo, sem se aperceber que o apocalipse estava para chegar. Como você, também fiquei recordando como foi o meu dia naquele dia.
    Imagino o quanto tenha sido diferente para o Cage e para o outro ator passarem mais da metade do filme atuando só com o rosto ou eventualmente uma mão. Coisa difícil.
    Valeu pelo texto. Um abração!
    P.S. Por que você e o grande Paulo não colocam os trailers dos filmes que resenham aqui? É só pegar no You Tube. Tenho feito isso no Antigas Ternuras e o resultado é excelente.

    By Blogger Marco Santos, at 6:29 PM  

  • Grande Marco, agradeço suas generosas palavras sobre o texto. Quanto à sua sugestão de disponibilizar o trailer do filme, falarei com o Paulo, pois ele é o grande gênio da computação aqui! Um forte abraço!

    By Blogger Evandro C. Guimarães, at 7:46 PM  

  • Evandro,
    Gostei muito do que vi em As Torres Gêmeas (esperava um filme decepcionante e saí emocionado). Quanto à árdua tarefa de Oliver Stone, Impossível fazer um filme sobre a tragédia do 11 de Setembro e não ser patriótico. Afinal de contas, a história aconteceu com eles e eles a contam da forma como melhor entendem. Achei um filme comovente. Não sei por que tanta gente nos blogs meteu o malho nesse e no Vôo 93 do Paul Greengrass. Abraços do crítico da caverna cinematográfica.

    By Anonymous Roberto Queiroz, at 5:52 PM  

  • Concordo plenamente com a sua opinião, Roberto. Realmente não consigo entender a razão de críticas tão duras para um filme tão bem realizado.

    By Blogger Evandro C. Guimarães, at 9:01 PM  

  • Oiii sou da comunidade dos blogueiros no orkut, e como os blogs estão sem visitas, tristes e desamparados...Resolvi agitar, então coloquei os endereços no meu blog e vamos visitar
    www.professoraestherchiquetosa.blogger.com.br

    By Anonymous Esther, at 9:20 PM  

  • Evandro, ainda não vi o filme, mas a julgar pelas suas palavras, Stone criou outra obra cinematográfica poderosa, um convite à reflexão. Já não era sem tempo!

    Cumps.

    By Blogger Gustavo², at 10:24 PM  

  • Sócio, mais um texto impecável e longe do lugar-comum. Se Oliver Stone não fez a polêmica que todos esperavam, ao menos nos lembra de que a humanidade não foi soterrada naquele 11 de Setembro. Ao contrário, a catástrofe despertou uma das características mais nobres de nossa espécie: a capacidade de ser solidário. Penso que “As Torres Gêmeas” é sobre isto. É também sobre os que sobreviveram àqueles atentados, o que faz deste filme um interessante contraponto a “Vôo United 93”. Este, sobre os que pereceram. Quando puder, não deixe de conferir. Sobre a sugestão do amigo Marco, até já havia pensado anteriormente a respeito. Quem sabe, em breve, não teremos novidades visuais por aqui. Em tempo, valeu pelo “gênio da computação”. Com esta, lá se vai a minha humildade digital. :-D
    Grande abraço!

    By Blogger Paulo Assumpção, at 1:31 PM  

  • Também achei esse um bom filme, mas longe dos melhores momentos do Stone. Tb escrevi sobre ele no NTSA. Um grande abraço!

    By Anonymous Vladimir, at 5:51 PM  

  • Grande Evandro e grande gênio da computação (não por acaso, meu personal teacher de template): recomendo que vocês assistam o bom Dália Negra. Filme forte, de trama complexa. Vale a pena conferir. Tem o "Wood e Stock - Sexo, orégano e rock and roll", que eu achei excelente! Ri de me esbodegar. mas esse não vai passar aí na sua área, Evandro. Pena.
    No mais, colocar filmetes do You Tube é a coisa mais fácil do mundo! Até uma anta como eu consegue! É só pegar o código do template que está ao lado de cada filminho lá e transcrevê-lo inteirinho, sem mais nada, para o post.
    Não requer prática e nem tampouco habilidade!
    Grande Paulo: Nos vemos amanhã na casa da Luciana?
    Bom final de semana aos dois.

    By Blogger Marco Santos, at 6:20 PM  

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