sexta-feira, fevereiro 17, 2006

E O OSCAR VAI PARA... BOA NOITE E BOA SORTE ?

Um dos momentos mais constrangedores da história do Oscar ocorreu na cerimônia de 1999, quando Elia Kazan recebeu um prêmio honorário pelo conjunto de sua obra. Apesar de sua carreira fazer jus à estatueta, o cineasta subiu ao palco recebendo aplausos meramente compulsórios. Tal frieza para com um dos grandes nomes do cinema se deve ao fato de que, cinco décadas antes, Kazan, então um "comunista arrependido", delatou seus colegas de Hollywood ao Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, espécie de versão moderna para o Tribunal do Santo Ofício que, entre 1950 e 1954, teve como “inquisidor-mor” o senador Joseph McCarthy. Era a época do Macartismo, onda de perseguição aos simpatizantes (ou supostos simpatizantes) do comunismo que deixou os Estados Unidos à beira do fascismo.

A “caça às bruxas” liderada por McCarthy, que não hesitava em servir-se de mentiras e usar o medo da suposta ameaça comunista em benefício próprio, pode ter levado a atitudes covardes como a de Kazan, mas não foi suficiente para calar as vozes de quem se preocupava com os perigosos rumos que a América tomava. Entre os críticos do infame senador estava o apresentador de TV Edward R. Murrow, que, com o aval do produtor Fred Friendly, usou o seu programa na rede CBS para denunciar as arbitrariedades cometidas por McCarthy. Este é o tema do segundo filme dirigido por George Clooney, Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck).

Embora já tenha dado provas disso em seu trabalho de direção anterior (Confissões de uma Mente Perigosa), Clooney confirma aqui que é mais talentoso por trás do que à frente das câmeras. De fato, não chegam a ser surpresas suas tomadas dignas dos grandes mestres, como o já citado Elia Kazan, para ficarmos com um exemplo, ou a mais do que competente direção de atores, afinal, Clooney é um ator, e como tal deve saber bem dos interesses e necessidades de seus colegas. O que me surpreendeu mesmo foi constatar que Clooney é um cara politizado. O subtexto que injeta no filme, com alfinetadas na política de George W. Bush e até críticas à televisão (veículo que lhe deu fama), demonstra o quanto eu estava enganado ao imaginá-lo como mais um astro alienado. Clooney toma parte em uma guerra pela defesa da liberdade de expressão. Guerra esta que teve uma batalha vencida nos anos 50, mas que ainda está longe de terminar.

Clooney só faz mesmo o seu arroz com feijão quando o negócio é atuar. O mesmo não pode ser dito de seus companheiros de cena. David Strathairn está impecável com sua caracterização minuciosa de Ed Murrow. Torço para que daqui para frente deixe de ser relegado a papéis de coadjuvante ou a produções televisivas. Me impressionou também a interpretação de Ray Wise, como o atormentado Don Hollenbeck, apresentador do CBS News. Outro destaque é Dianne Reeves, como a cantora de jazz cujas canções pontuam os diversos momentos do filme. Por fim, não dá para esquecer a soberba atuação póstuma de Joseph McCarthy em pessoa. Desde já, o vilão do ano! Brincadeiras à parte, mostrou-se uma excelente opção aproveitar suas imagens reais ao invés de se colocar um ator em seu lugar. Ótimos trabalhos de pesquisa e edição!

Quanto ao Oscar, apesar do franco favoritismo de O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain) na categoria mais cobiçada, ou seja, a de Melhor Filme, Boa Noite e Boa Sorte pode ser beneficiado por uma atitude recorrente na Academia. A de conceder uma penca de prêmios para atores que viram diretores e suas respectivas realizações. Foi assim com Robert Redford, Clint Eastwood, Kevin Costner e Mel Gibson. George Clooney tem boas chances de ser a bola da vez.

Good night, and good luck!

Indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (David Strathairn), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia.

10 Comments:

  • Xará:

    Sabe que achei a punição até branda em relação aos coagidos aplausos ao grande Elia "judas iscariotes" Kazan,na entrega do Oscar 99?... Pior fora o silêncio absoluto,que se nivelaria ao desprezo mais abjeto. Porém,o gênio (meu Deus,"A morte do caixeiro-viajante"!) do cineasta novaiorquino de sangue grego sobrepujou sua fraqueza moral.

    Acho mais que louvável o universal redivivo tema Marcatismo. Tudo o que sabe a traição é nojento demais,miasma da raça humana,e essa baba ocre deve ser ressuscitada sempre.

    Meu caro,concordo,com garbo,sobre tua opinião ao ator Clooney: ele ostenta uma atuação beeeem razoável mesmo ante as câmeras. Tomara que o dito-cujo acerte a mão de vez por trás da máquina de filmar,e se aposente de encenações - para o alívio geral dos cinéfilos.

    Usual por mim,mas que necessário repetir-se: Você escreve beirando a perfeição. Vizinho de teu bom senso,habita um estilo ameno & salutar & irrepreensível.

    Parabéns em alto padrão.

    Notinha 1: E eu mereço a chamada embaixo do teu post? Também sou eternamente do cativante Cinelândi@!

    Notinha 2: rapaz,tu já nascera (embora fosses um guri bem verde; eu tinha 15 anos) no tempo do "Viva o Gordo" (1979),o qual personagem - a impersonalidade em forma de gente - citado por mim no post anterior,criado por Jô Soares,lançava sempre o jargão "tirou daqui,ó!" quando um dos convivas dava ser parecer sobre tal assunto,e etc. e tal. O Grande Marco deve recordar...

    Deixo minhas desculpas pelo jornaleco aqui,e meus mais que cordiais abraços aos amigos sétima arte.

    By Anonymous Paulinho Patriota, at 4:38 AM  

  • Emenda do incorrigível Patriota

    Leia-se:

    1 - Sabe que achei a punição até branda com relação (...)

    2 - (...) seu parecer (...)

    No dia de São Nunca,deixarei de ser relapso. Deve haver mais falhas no meu comentário. Perdoai.

    Bom fim de semana for all!

    By Anonymous Paulinho Patriota, at 4:48 AM  

  • Esse filme tem um tema distante à boa parte dos espectadores brasileiros (eu, inclusive, terei de pesquisar antes de me aventurar numa possível sessão). Estão chamando Clooney até mesmo de "o novo Warren Beatty", seja pelo ativismo político, seja pelo talento por trás das cãmeras.

    Cumps.

    By Blogger Gustavo H.R., at 12:43 PM  

  • Paulo,
    Eu já assisti aos cinco filmes que concorrem ao Oscar de Melhor Filme. Já estou postando os meus textos sobre cada um deles lá no Antigas Ternuras.
    "Boa Noite e Boa sorte" merecia uma "boa sorte", mas vai ganhar um "boa noite" no Kodak Theatre.
    Parabéns pela sua resenha. Está excelente, como de hábito.

    By Blogger Marco Santos, at 1:41 AM  

  • Eu gosto do filme, mas sinceramente não consigo dar crédito nenhum para Clooney. Para mim ele é o maior problema, principalmente quando se fala no roteiro. Acho que o que realmente me desgradou foi a curta duração e uma aparência de que tudo foi muito fácil.

    By Anonymous Gabriel Carneiro, at 9:43 AM  

  • Tenho muita vontade em assist=i-lo porém seu circuito de exibição é muito pequeno, acho louvavel resgatar contextos históricos polêmicos para que haja uma releitura dos mesmos.

    By Anonymous Paulo Jr., at 11:13 AM  

  • Gostei muito do filme, mas concordo com vc que será difícil alguém destronar o filme de Ang Lee. A essência de Boa Noite e Boa Sorte é na minha opinião a discussão sobre o verdadeiro papel da existência da mídia, seja ela em que seguimento for.

    By Anonymous Vladimir, at 1:30 PM  

  • Oi
    Vim te agradecer a visita e agradecer pelo blog aqui.
    Muito legal.
    Adorei.
    E assim fica mais fácil, para mim, bem leiga em cinema, entender muitas coisas...

    Obrigada e parabéns...

    beijo grande

    http://leve.zip.net

    By Anonymous claudia, at 10:24 PM  

  • Fiquei muito surpreso pela direcao de Clooney, apesar de ter visto Confissoes de uma mente perigosa, que tb eh bom. Mas todo aquele ambianete criado, fumantes no preto e branco, e tomadas fantasticas, foi um show a parte. Alem do ótimo roteiro e trabalho de edicao como vc citou.

    By Anonymous Jedi, at 8:59 AM  

  • Xará 1, é claro que você merece a chamada. É o mínimo que podemos fazer para agradecer por constantemente destacar o Cinelândi@ no seu Zoom Cotidiano. Quanto ao personagem do Jô, definitivamente não era da “minha época”. :-D

    Gustavo, não é necessário ter um conhecimento mais aprofundado sobre o Macartismo para ver Boa Noite e Boa Sorte. Até porque o filme transcende o assunto. Ainda assim, se quer saber mais sobre o Macartismo, vá em frente!

    Marco, obrigado pelo elogio! Como não sou da folia, aproveitarei o Carnaval para conferir os seus posts sobre os indicados a Melhor Filme no Oscar e colocar a leitura do Antigas Ternuras em dia.

    Gabriel, penso que a duração está na medida certa da paciência do grande público para um filme exclusivamente de diálogos. Também não vejo facilidade na “vitória” do protagonista, já que uma batalha foi ganha, mas a guerra continua.

    Xará 2, é realmente lamentável que um filme como este fique limitado a um circuito tão restrito. Até porque poucos acabam tendo acesso à discussão que suscita. Atualíssima, apesar de aparentemente estar relacionada a eventos do passado.

    Vladimir, com ou sem o “careca dourado”, Boa Noite e Boa Sorte já foi (merecidamente) posto em evidência por suas indicações ao Oscar. Nada mal para um projeto concebido para a TV. Concordo com suas colocações a respeito do cerne do filme.

    Claudia, nós aqui do Cinelândi@ também ficamos gratos por sua visita. Esperamos ser capazes de seduzi-la para o apaixonante mundo da Sétima Arte. Apareça sempre!

    Jedi, quem diria que um cara que estrelou uma seqüência de Tomates Assassinos, foi galã de seriado televisivo e Batman equivocado seria capaz de tamanha proeza técnica, hein?!

    A todos, abraços e um ótimo Carnaval!

    By Blogger Paulo Assumpção, at 1:46 PM  

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