domingo, dezembro 04, 2005

DOBRADINHA BRASILEIRA

Há dez anos, encontrar um filme brasileiro sendo exibido no circuito cinematográfico do país era uma verdadeira raridade. Sucessos nacionais de bilheteria então, nem se fala! Até que, num lance ousado (ou desesperado), a atriz e cineasta Carla Camurati colocou as poucas cópias do seu Carlota Joaquina, uma sátira sobre a presença da corte de D. João VI no Brasil, debaixo do braço e foi bater de porta em porta dos chapas exibidores a fim de que o longa pudesse chegar às telonas. A tática não só deu certo, como, para surpresa de todos, a fita se transformou num marco do reencontro dos brasileiros com as produções feitas neste país. A partir daí, muitos outros títulos nacionais passaram a compor uma lista de bem-sucedidos junto às nossas platéias. E os dedos de uma mão agora são poucos para contar o número de filmes brasileiros em cartaz.

Contudo, falta ainda aos nossos conterrâneos descobrir que o atual cinema brasilis vai além das biografias de ídolos musicais e comédias com o selo Globo Filmes. É uma pena ver que produções nacionais, que primam pela excelência técnica e narrativa, só por fugirem aos gêneros citados, acabam não recebendo a merecida presença maciça do público. Caso de dois filmes recentes, com diversos pontos em comum (histórias que lidam com a amizade, tendo o Nordeste como cenário, dirigidos por estreantes em longas de ficção e exibidos com sucesso nas últimas edições dos festivais de Cannes e do Rio): Cidade Baixa, de Sérgio Machado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes.

No contemporâneo Cidade Baixa, Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) são amigos desde a infância e donos de um modesto barco de transporte. A relação simbiótica entre os dois é abalada pela presença da stripper Karinna (Alice Braga). O que começa como mais um negócio da dupla (ela pede carona na embarcação em troca de sexo), se transforma em um triângulo amoroso perigosamente à beira de uma tragédia.

Para ser bem sincero, este tipo de trama passional não me apetece. Até por não ser nada original. No entanto, como todas as histórias parecem já ter sido contadas e o que resta mesmo é como são contadas, não posso deixar de reconhecer que, no final das contas, Cidade Baixa é um filme de direção e atuação. Sérgio Machado adota um estilo nervoso, focado em gestos e na crueza da realidade, perfeito para uma narrativa que mostra como o Homo sapiens ainda se deixa conduzir de modo instintivo, da mesma forma que seus mais remotos ancestrais (se bem que, num dado momento, é uma característica humana, aqui representada por laços de amizade não de todo desfeitos, que impõe um limite à animalidade). Méritos também para a trinca central de protagonistas, dando um show de interpretação (se bem que isso não surpreende em se tratando de Ramos e Moura).

Já em Cinema, Aspirinas e Urubus, somos levados ao sertão nordestino de 1942. Fugindo da Segunda Guerra Mundial, o alemão Johann (Peter Ketnath) torna-se um vendedor itinerante de aspirinas em terras brasileiras, utilizando-se de um meio de persuasão irresistível: o cinema. No caminho, Johann concede carona ao falastrão Ranulpho (João Miguel – anotem esse nome!). Logo, se estabelece uma amizade que os conduz a destinos imprevisíveis.

Sem titubear, trata-se do melhor filme brasileiro do ano (quiçá dos últimos anos). Razões não faltam para esta minha afirmação, que vão da bela fotografia esmaecida (como um velho retrato, mas que também serve para acentuar a aridez do sertão) à incrível habilidade de Marcelo Gomes (a cena em que três personagens dialogam na parte dianteira do carro de Johann não me desmente), passando pelo jogo de contrastes, em especial, os pontos de vista dos protagonistas sobre nossa terra (que fascina o estrangeiro e amargura o nordestino). Há que se destacar também as canções de época que funcionam como complementos a diversas situações do longa, no melhor uso que conheço de uma trilha sonora não-original em um filme. Enfim, pode não ser a cura para todos os males, como promete o reclame da aspirina. Mas que faz a gente sair do cinema mais leve, isso faz!


11 Comments:

  • Oiê... primeirona, eu??? Pelo convite, supus q sim, mas pela minha demora, supunha q não... suposições à parte, por enquanto estou passando pra dar as boas vindas, desejar boas vibrações, e com certeza, muito mais sucesso para o novo espaço, q com certeza manterá o nível do anterior... agora, esperamos todos, sem as "lerdezas" do Weblogger... Bem, em breve eu volto. Beijos e até amanhã!

    By Anonymous Helena, at 9:05 PM  

  • OBS. Esqueci de agradecer... dãaaa... muuuuuuuuuuuuito obrigada pelo carinho e pela confiança. O espaço está genial! E com certeza, com o tempo, ficará tão incrementado quanto o anterior. Beijos.

    By Anonymous Helena, at 9:07 PM  

  • Segundão! Como eu "conheci" você e o Evandro por intermédio da doce Helena, nada mais justo que ela me precedesse na visita ao meu novo vizinho. Seja benvindo! Como eu escrevi na resposta ao seu comentário no Antigas Ternuras, agora só falta a nossa querida e doce moreninha fazer jorrar a sua fonte da saudade e de simpatia no Blogspot.
    Sobre os filmes comentados, só assisti a um deles, o "Cidade Baixa", e mesmo assim, não vi o final. Você acredita que na cena em que os dois saem na bolacha acabou a energia, lá no Estação Unibanco? Sem previsão de quando ela voltaria, preferi aceitar o dinheiro de volta e ir embora. Depois me conta o que aconteceu depois da briga dos dois, tá?

    By Blogger Marco Santos, at 10:35 AM  

  • Legal a casa nova!!! Caramba, cês curtiram mesmo o filme do Marcelo Gomes, hein? Já tinha visto isso na resenha, e agora a homenagem no nome do novo blog... Fiquei mais curiosos ainda em assistir! Boa sorte na nova página! Abraços!

    By Anonymous Marcelo Lima, at 10:48 AM  

  • Caro amigo:
    Envio esta mensagem para avisá-lo de que seu blog foi lembrado pelo público na eleição do prêmio OMNICAM 2005, e está entre os indicados finais aos destaques.

    Confira no blog UNDER PRESSURE 2 (http://under2pressure.blogspot.com) a lista completa de indicados, e vote em http://omnicam2005.blogspot.com .

    Parabéns pela indicação e até!

    By Blogger Luiz Henrique Oliveira, at 3:30 PM  

  • PS: o indicado foi o blog antigo de vocês, o Cinelândia. E outra: adorei o novo espaço, bem melhor... e o weblogger era mesmo um saco, fazia tempo que queria comentar no antigo e nao conseguia... e nem entrava... boa sorte neste novo!
    Até!

    By Blogger Luiz Henrique Oliveira, at 3:31 PM  

  • Este novo visual ficou muito bom; espero apenas que vocês não tenham perdido os arquivos do Cinelândi@.
    Já havia lido e comentado este post; aparentemente, o filme de Marcelo Gomes inspirou ô título da nová página.

    Cumps!

    By Blogger Gustavo H.R., at 1:00 PM  

  • Comentando agora o post: gostei muito do Cinema, Aspirina e Urubus, do Marcelo Gomes. Achei bem original.

    Agora, o Cidade Baixa, não sei... achei o filme um tanto quanto parado, com uma história boa, mas entruncada. Dificil de ser visto. Boas são as atuações.

    Enfim, é isso. Um abraço para vocês e até!

    By Blogger Luiz Henrique Oliveira, at 7:46 PM  

  • Meu caro personal teacher: antes de mais nada, parabéns pela indicação ao Oscar dos blogs (OMNICAM 2005). Como seu humilde aluno, fico muito alegre em saber da merecida indicação.
    Vi o "Cinema, Aspirinas e Urubus" e gostei bastante. Não chego ao ponto de nomeá-lo como um dos melhores da década. Na verdade, nem o considero como o melhor brasileiro do ano (teria dúvidas na hora de apontar o melhor de 2005, mas ficaria entre "Vinícius", "Quanto vale ou é por quilo" e "Quase dois irmãos"). Sabe que filme faria bom par com o "Cinema, aspirinas..."? "O Fim e o Princípio", do Eduardo Coutinho. Nos dois eu vi um Brasil que desconhece o Brasil. Vendo os dois, eu percebi o quanto de engano existe em falar coisas como "o povo brasileiro quer...", "o povo brasileiro exige...". Vendo estes filmes, senti que boa parte do povo brasileiro (essa entidade abstrata...) quer tocar a própria vida da melhor forma possível.

    By Blogger Marco Santos, at 11:52 AM  

  • Em primeiro lugar, gostaria de saber o que houve com o Cinelândia????

    Depois, queria dizer que só faltei aplaudir o texto no final. Tu está escrevendo cada vez melhor, Paulo. E olha que não fi os filmes. Parabéns!!!

    E por último, deixar a minha posição sobre os filmes brasileiros. Assisti ao Terra em Transe no último domingo e cada vez mais acredito que o cinema nacional NASCEU, veja bem, começou com a retomada. O resto... bom, o resto era só tentativa. Beijos a todos!

    By Blogger Belisa, at 10:56 PM  

  • Helena, o convite não foi à toa. Primeiro, porque seus comentários são sempre muito preciosos para mim. Segundo, porque você é “pé quente”. Foi a “primeirona” do Cinelândi@ e o blog foi um sucesso! Agora, vê se reativa logo o seu outro blog, pois estou com muitas saudades da Fonte. Aliás, que tal seguir o conselho do Marco? O Blogspot me impressionou. É cheio de recursos. Embora alguns deles exijam conhecimentos de inglês para serem utilizados. O que, para você, não seria nenhum problema.

    Marco “Segundão”, é uma honra ter como “vizinhos” blogueiros de mão cheia como você, o Luiz, o Gustavo, a Belisa e tantos outros usuários do Blogspot. Quem sabe até nossa querida Helena não se inclua em breve nesta lista... A respeito do final de “Cidade Baixa”, [spoiler] depois de se estropiarem na briga, os ex-amigos vão procurar o socorro de quem? Não é difícil imaginar, né? A última cena do filme se passa no quarto da Karinna e é silenciosa, com a stripper cuidando das feridas dos outros vértices do triângulo amoroso.[fim do spoiler] Quanto ao filme que dá nome a este blog, como ainda não vi as demais fitas que citou, continuo a considerá-lo o melhor nacional do ano. Mas concordo com os seus demais comentários. Apesar dos pesares, o Brasil ainda é visto como a Terra da Promissão. Mesmo que sua “localização precisa" seja sempre empurrada para uma região mais distante (Rio, no caso do nordestino; Amazonas; ...) na medida em que só conseguimos ver o pior a nossa volta.

    Marcelo, o sócio Evandro ainda não pôde apreciar o filme do seu xará, portanto, posso dizer por mim: sim, eu curti muito! E embora não deixe de ser uma homenagem, o título do filme foi escolhido para batizar o novo blog por o considerarmos bem adequado à nova proposta de escrever sobre outros assuntos além de cinema. Ah! E não deixe de conferir “Cinema, Aspirinas e Urubus” (o filme) na telona!

    Luiz, nós aqui ficamos surpresos, felizes e honrados com as indicações para a gente e para o Cinelândi@. O mínimo que podemos fazer (além de votar, claro!) é lhe parabenizar pela iniciativa. Também ficamos contentes por ter aprovado nossa mudança. Sem querer cuspir no prato em que comi, você está corretíssimo quando diz que o Weblogger era um saco. Já que aquele sistema não o faz, peço desculpas por todas as vezes que teve problemas para acessar nosso antigo (e agora postumamente indicado – que chique!) blog. Sobre os filmes resenhados no post, também gostei (infinitamente) mais de “Cinema, Aspirinas e Urubus” do que de “Cidade Baixa” (francamente, nem posso dizer que gostei deste último).

    Gustavo, se o Weblogger não continuar nos sabotando, pode ficar tranqüilo que tentaremos manter com carinho os arquivos do Cinelândi@. Até porque não se jogam dois anos e meio de história no limbo do ciberespaço, né? Por falar nisso, enquanto o Weblogger permitiu, cheguei a ler o seu comentário sobre o post feito por lá. O que acha de eu trazê-lo para cá? Quanto ao nome do novo blog, conforme expliquei para o nosso amigo Marcelo, o título do filme foi mesmo sua fonte de inspiração.

    Belisa, o Weblogger se desestabilizou de vez nos últimos dias, o que nos forçou a fazer uma mudança de emergência. Aproveitando o contexto, decidimos tornar o novo blog mais abrangente em termos de assuntos abordados. Mas o cinema ainda será o “carro-chefe” da nossa programação. Tudo isso já deveria ter sido explicado em um post de encerramento do Cinelândi@, que, infelizmente, o Weblogger ainda não deixou ir ao ar. Quanto aos seus elogios, fico muito grato. Palavras como esta são o combustível que preciso para seguir em frente e sempre tentar oferecer algo melhor para os meus leitores. Ainda mais quando elas partem de alguém com tanto talento. ;-)
    Sobre a sua observação a respeito do cinema nacional, de fato, a partir da “retomada”, demos um salto com relação à qualidade técnica de nossos filmes. Contudo, dizer que o cinema brasileiro “nasceu/começou” neste momento pode até valer para o que se fez nas décadas mais recentes, mas pode ser injusto no conjunto de mais de um século de história.

    A todos, sejam sempre bem-vindos à nossa nova casa virtual!

    By Blogger Paulo Assumpção, at 12:31 AM  

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