QUANDO A POEIRA ASSENTA

O livro é um lugar-comum de histórias de mistério, recheado por teorias que não encontram sustentação, nem na história da arte e muito menos na do cristianismo. Segundo especialistas sérios, é um dos livros mais mal pesquisados já vistos e comete erros históricos grosseiros. Ainda assim, uma pequena curiosidade me levou aos cinemas. Mesmo partindo de uma origem débil, o fraco livro escrito por Dan Brown, o filme poderia perfeitamente funcionar como um entretenimento passageiro e descartável. Havia potencial para isso.
Entretanto, alguns pecados capitais retiraram a possibilidade deste filme funcionar de forma eficiente. Primeiramente, os personagens centrais têm a profundidade de um pires. O roteiro não conseguiu passar para as telas a esquálida essência que os referidos personagens possuem no livro. O que já era mínimo no livro, desaparece por completo no filme. Obviamente, se os personagens são tão rasteiros, o trabalho dos atores ficou prejudicado. Tom Hanks está numa das piores atuações de sua carreira na pele do professor de simbologia Robert Langdon. Por sua vez, Audrey Tautou beira o ridículo, construindo uma Sophie Neveu excessivamente desorientada e tola.
Além disso, alguns elementos do livro, ligeiramente modificados, causaram grandes estragos. Um Langdon praticamente defensor da Igreja Católica soou muito mal, e cheirou a tentativa de se fazer média com uma das instituições mais poderosas do mundo. Certos fatos aconteceram muito rápido, outros não foram explicados e, no saldo final, quem não leu o livro corre o sério risco de não entender muita coisa.
Todos sabemos que Ron Howard costuma conduzir seus filmes num ritmo mais lento que a maioria dos cineastas de Hollywood. Em películas como Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), este fato não chegou a comprometer. Infelizmente, não podemos dizer o mesmo de O Código Da Vinci (Tha Da Vinci Code). Quando um filme é lento, mas dentro de uma proposta artística, como costuma fazer Terrence Malick, conseguimos digerir melhor a falta de ritmo. O que não se aplica ao filme de Howard, que não possui nenhuma proposta artística.
Por último, quero fazer uma declaração de princípios necessária neste momento: SOU CRISTÃO! Isto mesmo, sou a ovelha negra, vergonha para meus colegas professores de História, ateus em sua maioria. Dito isto, pergunto: qual é a razão para toda a querela em torno das idéias defendidas por Dan Brown? Qual perigo elas representam? Quais estragos podem causar ao cristianismo? Respondo: nenhum!
Ninguém poderia prejudicar mais a imagem do cristianismo do que a Igreja Católica e as Igrejas Protestantes, com suas arbitrariedades, crendices, massacres, pilhagens, genocídios e ocultismos baratos, tudo em nome de Deus! Qual mal um mísero e débil Dan Brown poderia causar à Igreja, pior do que os males que ela já causou a si mesma ao longo da história?
Uma enorme nuvem de poeira foi levantada em torno da “obra” de Brown. Um livro que poderia abalar os pilares da Igreja Católica e do cristianismo. Imbecis radicais passaram a fazer uma campanha contra o livro e, por tabela, contra o filme. O Vaticano, um deputado paulista querendo chamar a atenção, e sabe-se lá que outra qualidade de oportunistas não se engajaram nesta luta contra a grande blasfêmia de Dan Brown. Todo esse barulho por causa “disso”? Um livro tão inofensivo quanto uma musiquinha infantil de Bia Bedran.
Nenhum livro ou filme pode abalar mais o cristianismo do que as atrocidades cometidas pelas Igrejas que se autodeterminam cristãs e detentoras das únicas verdades sobre esta crença. O resto é poeira!
13 Comments:
Pois é, sócio, muito barulho por nada este Código Da Vinci. Livro medíocre, filme idem. Ao menos eles renderam mais um excelente post seu. Tanto pelas críticas feitas à fita de Ron Howard, como por suas palavras a respeito da polêmica levantada pela obra (sic) de Dan Brown. Depois daquela seqüência inicial bacana, com as pinturas do Louvre “testemunhando” o assassinato que dá início à trama, Howard parece ter entrado no piloto-automático. No que foi seguido pelo chapa Hanks. Contudo, não culpo Audrey Tatou pela imbecilização de Sophie Neveu, mas sim o roteirista Akiva Goldsman (não é de hoje que considero este cara um picareta). Quem leu o livro, sabe que a senhorita Neveu é muito mais esperta. Também me irritou o fato do roteiro do filme fazer questão de revelar o que é EXATAMENTE o Santo Graal, coisa que Brown, num raro momento de sabedoria, não faz. Quanto à atitude defensiva (ou seria ofensiva?) da Igreja, concordo com o que você escreveu e acrescento: esta instituição, na qual me criei, está, no final das contas, fazendo propaganda gratuita para o livro/filme em questão. Grande abraço!
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Paulo Assumpção, at 11:05 PM
Escreveu muito e disse tudo, Evandro. Em especial, o penúltimo parágrafo, expondo a tontice daqueles que tentaram calar o sucesso polêmico da obra de Brown e só conseguiram atrair mais atenção e desconfiança em relação à temática duvidosa do livro.
P.S.: um dos últimos professores de História (e Geografia) que eu já tive eram ateus... A estatística é fato mesmo.
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Gustavo H.R., at 1:24 AM
Grande sócio, os seus comentários servem como um complemento de luxo para o texto. Concordo totalmente contigo!
É verdade, Gustavo, os tontos que atacaram o livro e o filme se tornaram a melhor agência de propaganda do mundo! Dan Brown agradece!
E realmente sou uma ovelha negra entre meus colegas. As estatísticas não mentem.
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Evandro C. Guimarães, at 8:51 AM
Caro Evandro,
Tenho opinião diversa sobre o filme. Eu gostei. Não li o livro, mas fiquei com vontade. O meu coordenador disse que, por incrível que pareça, a história contada no filme é melhor que a do livro. Vou conferir. No mais, tomo o livro, o filme e a história que ele conta como ficção. E ficções não costumam abalar estruturas sólidas. Mas tanto o filme Código da Vinci quanto o documentário O Evangelho segundo Judas, do National Geographic, me chamaram a atenção para o Concílio de Nicéia. Estou começando minhas pesquisas sobre isso.
Um grande abraço!
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Marco, at 12:14 PM
Grande Evandro:
Tenho uma "prenda" de 20 anos,que ganhei de um conterrâneo residente em Maceió: "Se Houver Amanhã",de Sidney Sheldon. O presente de grego está intacto tal qual me foi entregue - e boceja no limbo mais recôndito de minha estante.
Não é esnobação,é "know how" (intuição?),mas o livro de Dan Brown sempre me soube ao jargão "Não li e não gostei". Muito antes de ler a resenha do supracitado,eu já estava ressabiado. (Estou morrendo de medo de ganhá-lo no próximo dia 29,data em que nasci. Não sei fingir contentamento quando algo me desgosta ao cubo. Vade retro!)
De todos os textos que li de ti até agora,confesso que este se me apresentou antológico.
As duas criações "artísticas": inconhas do ao rés-do-chão; paradigmas da mediocridade!
Congratulações,meu fino.
PS: também sou Cristão assumidíssimo.
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Anônimo, at 7:15 PM
Que bom que você conseguiu gostar do filme, Marco. Para mim, infelizmente, foi decepcionante. Mas, opiniões divergem mesmo e, com toda certeza, não vamos brigar por causa disso. Muito pelo contrário, viva a diversidade de opiniões!
Muito obrigado, grande Paulo Patriota. Fico feliz e honrado em saber que você aprovou o texto.
Temos mais isso em comum, a nossa crença!
Um grande abraço!
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Evandro C. Guimarães, at 8:28 PM
Tenho uma impressão muito similar a sua sobre as questões levantadas sobra a Igreja Católica, somente acentuando propaganda para o filme. Sobre o livro ainda o acho um passatempo agradavel e agil, o filme não conseguiu aproveitar isto, uma pena.
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Anônimo, at 12:50 AM
O livro, apesar da pobreza em termos literários, poderia gerar um entretenimento despretensioso de boa qualidade. Nisso concordo contigo Paulo Jr. Só que isto não ocorreu!
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Evandro C. Guimarães, at 9:38 AM
Evandro, após ter assistido a película (e sendo leitor do livro), me faço hoje a seguinte pergunta: será que o autor Dan Brown realmente queria acusar a igreja de alguma coisa? ou será que ele apenas utilizou-se dela como mote para criar um best-seller? pergunto isso porque vejo uma grande carência de bons livros no mercado editorial contemporãneo. Tenho visto muita gente escrever coisas ditas polêmicas visando unicamente o lucro e o sucesso (a famosa indústria de criação de celebridades!). Quanto ao filme, realmente é muito fraco. Além disso, não vejo necessidade de se acusar uma igreja que por si só, ao longo da história, é por demais contraditória. O resto, você sabe: é ganhar dinheiro (e, principalmente, conseguir fazer com que os outros livros de Brown também sejam adaptados futuramente). Abraços do crítico da caverna.
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Anônimo, at 10:39 AM
Agradeço a sua presença, Roberto. As suas reflexões sobre o livro são muito pertinentes e enriqueceram ainda mais a discussão. E creio que você tem toda a razão!
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Evandro C. Guimarães, at 8:59 PM
movimento anti-arrasa quarteirão.
eu não vou assitir!!
abraços
Iris
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Iris de Oliveira, at 1:23 PM
Ainda não tive coragem de ver o filme e passo longe do livro... Mas confesso que a tua crítica me deixou mais desanimada ainda para passar duas horas e meia vendo isso e não um dos tantos outros filmes bons em cartaz em São Paulo... Abração!
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Anônimo, at 12:11 PM
Olá! A sumida reaparece, vivinha "da Silva". Bem, vi o filme e estou lendo o livro. Gostei do filme, sem maiores exageros... nota 7, eu daria... o livro me parece bem mais interessante, como sempre. Mas como eu sempre digo, cinema pra mim é distração, sem grandes análises. Esse é o papel de vocês. Não vou comentar se não me sinto suficientemente apta pra isso. Beijos!
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Lena Gomes, at 12:04 AM
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