sábado, abril 22, 2006

LONDON REVOLUTIONS

Final do século XX, o pesadelo de décadas se transforma em uma terrível realidade: eclode a Terceira Guerra Mundial. Por alguma razão, a Inglaterra é poupada dos ataques de armas nucleares que assolaram outras nações do mundo. Contudo, o caos reina no país. Para restabelecer a ordem, um governo fascista se impõe no poder. Minorias e opositores são enviados para campos de concentração, onde terminam eliminados. O restante da população é mantida sob rígida vigilância das autoridades. No entanto, toda esta estrutura totalitária é abalada pelas ações de um misterioso mascarado. Sob o signo da anarquia, ele destrói símbolos do poder e assassina figurões do regime. Sobrevivente da violência patrocinada pelo Estado, ele quer mais do que vingança. Seu objetivo maior é devolver ao povo a liberdade que lhe foi arrebatada.

O futuro do pretérito acima descrito foi imaginado por Alan Moore, um dos mais incensados autores de histórias em quadrinhos da atualidade. Em parceria com o ilustrador David Lloyd, Moore transformou suas idéias na graphic novel V de Vingança. Era o início dos anos oitenta e a profecia de Moore parecia estar bem próxima de se concretizar. A Inglaterra era governada com mãos de ferro por Margaret Thatcher e as relações entre as duas superpotências do período, EUA e URSS, andavam bastante tensas. Felizmente, a História tomou rumos menos piores: Lady Thatcher não chegou a virar um Hitler de saias e a Guerra Fria terminou. O que não desqualifica as habilidades de píton de Moore. O futuro de V só estava um pouco mais à frente. E, conseqüentemente, mais próximo de nós.

O cenário pós-11 de Setembro, onde, em nome do combate ao terrorismo (real ou imaginário), guerras preventivas são travadas e liberdades cerceadas, tornou-se a deixa perfeita para a transposição de V para os cinemas. V de Vingança (V for Vendetta), o filme, segue basicamente a trama estabelecida por Alan Moore nos quadrinhos. Tudo gira em torno da doutrinação da personagem Evey (Natalie Portman) por V (Hugo Weaving). O anarquista conhece a garota após salvá-la de ser estuprada pelos Homens-Dedo (espécie de Gestapo). Evey então presencia o primeiro grande ato terrorista de V: a destruição do prédio do Ministério da Justiça, acompanhada da promessa de que, dali a um ano, outra importante edificação viria abaixo, juntamente com o regime totalitário então no poder daquela Inglaterra fictícia.

Os melhores momentos do longa ficam mesmo por conta das seqüências retiradas dos quadrinhos, como as dramáticas cenas de Evey no cativeiro. Se bem que eu não pude deixar de rir mentalmente imaginando a melosa “Love by Grace” tocando no momento em que a mocinha tem suas madeixas raspadas. Mas falando sério, a pitéu Portman não faz descaso da origem quadrinhesca de sua personagem e nos entrega uma ótima performance. Outro que impressiona é John Hurt, que faz uma interessante composição do ditador Slater inspirada na fisionomia decrépita e na histeria de Hitler.

E se algumas modificações com relação aos quadrinhos funcionam perfeitamente, como a nova contextualização para a ascensão do fascismo inglês e a transferência da destruição das Casas do Parlamento para o clímax da história (numa cena que dá vontade de sair do cinema e derrubar os poderosos), outras incomodam bastante. O romance entre os protagonistas é totalmente desnecessário, assim como o excesso de explicações para as motivações de V. Mesmo assim, o filme não chega nem de longe a ser constrangedor como A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen). Se bem que, dentre as adaptações das obras de Alan Moore para o cinema, ainda sou mais Do Inferno (From Hell). Melhor sorte para Watchmen!

7 Comments:

  • Finalmente encontro alguem de bom gosto que fala que A Liga extraORDINARIA nao presta. :D

    Em V rolou um momento Laços de Familia :D

    Bom texto, pelo informativo politicamente, coisa que eu nao consigo fazer.

    []´s

    By Anonymous Jedi, at 9:14 AM  

  • achamos V de Vingança triste de tão ruim... mas realmente, tem pior. A galera ainda não sacou que quadrinhos não precisa ser adaptado, é linguagem visual... as boas HQs já são storyboards prontos. Pra quê mexer, se não é literatura? A concepção visual já está toda lá (montagem, direção de arte, roteiro...). Abraço:)

    By Blogger Davi, at 4:11 PM  

  • Paulo,
    Eu também fiz um post sobre o "V de Vingança". Gostei muito do filme. Acho que finalmente aprenderam a filmar quadrinhos. Estou precisando reler a graphic novel (tenho dois exemplares, mas estão na minha antiga casa) agora que eu vi o filme tão esperado. Curioso ver o John Hurt fazer o ditador neste filme e ter feito o perseguido em "1984". Ele deu show nos dois. Concordo com você: a LIGA é uma bomba. Estou roendo as unhas aguardando "Watchmen", o melhor gibi já feito, na minha opinião. Um abraço.

    By Blogger Marco Santos, at 6:50 PM  

  • Excelente filme que só não é perfeito devido a falta de experiência do diretor novato que aerrou em esticar demais algumas cenas.

    By Anonymous Vladimir, at 3:26 PM  

  • O filme tem uma proposta provocativa e interessante, mas acho que vou deixar passar (ao contrário de ti, não apreciei DO INFERNO).

    Cumps.

    By Blogger Gustavo H.R., at 3:28 PM  

  • Estou louco para assistir "V de Vingança", ainda bem que chega esse fim de semana na minha cidade, hehehe.

    Inté mais!!!

    By Anonymous TaTo, at 12:07 AM  

  • Eu não tinha noção nenhuma da história dos quadrinhos e acabei indo ver o filme por causa do Marcelo. Me surpreendeu bastante e, por incrível que pareça, não consegui dormir... hehehe! O lado político do longa é bem interessante e como ficção faz pensar de alguma forma.

    "Do inferno" achei sensacional. Aliás, poucas coisas não são maravilhosas com o Johnny Depp...

    Fui ver "O Corte" ontem, novíssimo do Costra-Gavras. Muito bom, recomendo!

    Abraços!

    By Anonymous belisa, at 10:09 AM  

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