BOM FILME, ADAPTAÇÃO FIEL

Hoje, estas séries soariam ridículas e nem crianças acreditariam em suas tramas. No entanto, nos próprios anos 80 a situação começaria a mudar. Lembro-me quando o apresentador-proprietário da emissora que exibia as séries acima citadas anunciou que uma nova série, já sucesso nos EUA, estava vindo para o Brasil. Fiquei imaginando que tipo de heróis seriam dessa vez, quais façanhas fantásticas eles fariam. Moleque adora essas coisas! Eis que para meu espanto e inicial decepção, a referida série não tinha heróis e os protagonistas não faziam coisas do arco da velha. Eram apenas policiais cheios de fragilidades humanas numa luta sem esperança contra o submundo do crime. A série se chamava Miami Vice.
Agora, décadas depois, o produtor da série – o cineasta Michael Mann – resolveu transportar sua antiga série para as telonas do cinema, com novos recursos e elenco. E foi uma ótima idéia, o resultado é excelente. O filme é muito fiel ao climão do seriado. Os policias Sonny Crockett (Colin Farrell) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) se infiltram numa megacorporação internacional do crime, após a morte de um de seus informantes e a execução de agentes do FBI. As histórias de disfarce para se infiltrar em organizações criminosas eram muito comuns na série. Além disso, a película tem a postura “pé no chão” que era adotada no seriado original. O esforço em parecer verossímil é evidente. Não imagine que policias que combatem o crime sempre vençam e sempre resolvam todos os casos. Esta nunca foi a proposta de Miami Vice. Michael Mann criou um produto que estava na contramão das séries da época. Estes dois policiais e sua equipe tinham suas limitações, eram vulneráveis e lutavam uma guerra sem fim e sem possibilidade de vitória. Outro ponto para o filme, que passa longe do triunfalismo e flerta o tempo todo com o senso de realidade.
Outro trunfo da produção é que não é apenas uma adaptação fiel, mas também um excelente filme. A trama pode parecer confusa a princípio, mas o espectador vai se inteirando da história aos poucos. O roteiro é muito bem elaborado, principalmente no tocante à complexidade da organização criminosa investigada. A história parece ter sido elaborada por quem é íntimo do mundo destas corporações criminosas. O modo de operar destas empresas do crime é mostrado de forma minuciosa. Isto contribui para dar legitimidade ao filme.
Em termos técnicos, Mann nos brinda novamente com o seu singular talento. O cuidado com a fotografia, os enquadramentos criativos que promovem o diálogo dos personagens, geralmente em primeiro plano, com a paisagem, muitas vezes austera e opressora, num segundo plano, quase tão forte quanto o ator que está no primeiro. A movimentação das câmeras é primorosa e a beleza plástica de determinadas tomadas é inegável. A técnica do cineasta permanece apurada a despeito do desprezo que lhe é dado por muitos, motivado por sua origem na TV.
Seria injusto não destacar o quanto o arrogante Farrell e o talentoso Foxx estão muito à vontade nos papéis dos protagonistas. Também merece crédito a sensibilidade do roteiro em mesclar na dose certa a “tecnobaboseira criminalista” com os dramas éticos e sentimentais dos personagens.
Creio que o filme Miami Vice poderá, enfim, mostrar que tanto o produtor da série quanto o cineasta Michael Mann merece muito mais consideração e respeito.
6 Comments:
Grande Evandro! Sua resenha está perfeita. Nada a acrescentar. Gostei de Miami Vice. Não assistia à série da TV. mas o filme é um ótimo entretenimento. O Foxx e o Farrell estão muito bem. O roteiro também está muito bem feito.
Valeu, um abração!
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Marco, at 3:48 PM
Ao contrário do Evandro, a série não é do meu tempo. Michael Mann é detalhista, objetivo e talentoso em suas realizações. Não é surpresa que ele tenha evitado a nostalgia nonsense de outras adaptações, ainda assim mantendo o essencial.
Uma quantidade considerável de pessoas não apreciou muito o filme; sua opinião vem a encorajar a encarar uma sessão.
Cumps.
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Gustavo H.R., at 1:04 PM
Apesar de ser do "meu tempo", nunca assisti a um episódio sequer da série Miami Vice, pois, quando estreou no Brasil, eu ainda estava naquela fase de me interessar apenas por programas mais escapistas. O horário em que foi exibida também era meio proibitivo para quem precisava acordar cedo no dia seguinte para ir à escola. Você deve ter tido problema semelhante, sócio. Ainda assim, lembro da propaganda feita na emissora do dono do Baú. Chamava à atenção o visual em cores bem vivas do programa e os temas realistas que abordava, os quais, como bem ressaltou, eram novidade e até ousadia para a época. Levando em consideração sua crítica, tentarei não perder o filme. Se bem que há tantos títulos igualmente interessantes em cartaz... Grande abraço!
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Paulo Assumpção, at 1:43 PM
Temos opiniões parecidas mesmo, Marco. Isso mostra que temos bom gosto. hehehe!
Certamente vale encarar uma sessão, Gustavo. Você não vai se arrepender.
Dê uma prioridade para Miami Vice, sócio, você não se arrependerá! Afinal de contas, você é do "meu tempo", provavelmente vai gostar também! hehe!
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Evandro C. Guimarães, at 5:59 PM
Não assistia a série e não assisti ao filme, mas gostei do que você escreveu. Acho que vale a pena conferir. O blog de vocês é bem legal, com ótimos textos.
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Igor, at 8:52 PM
Seja bem vindo ao Cinelândia, Igor! Pode acreditar que não estou exagerando. O filme realmente tem qualidades e vale cada centavo de um ingresso!
Um abraço e volte sempre!
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Evandro C. Guimarães, at 9:25 PM
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