sexta-feira, setembro 15, 2006

UMA OBRA SINGULAR

Nunca escondi de ninguém a minha preferência por filmes emotivos, que colocam a emoção em primeiro plano. Gosto de me emocionar ao assistir uma película. Obviamente não me refiro a produções sentimentalóides, que mais servem para idiotizar e terminam por despertar poucos sentimentos genuínos. Admito que costumo rechaçar tramas racionalistas em excesso. Muitas vezes são filmes muito bem realizados, mas a escassez de emoções dificulta a minha ligação com o filme e os personagens. Podem chamar isso de preconceito, talvez realmente seja. Mas é desta forma que costuma funcionar.

Felizmente existem exceções para quase todas as regras! No último final de semana tomei contato com uma obra tão bem realizada, construída a partir de um roteiro tão meticuloso e crítico, que o seu caráter altamente racionalista nem me incomodou. Refiro-me ao excelente Syriana - A Indústria do Petróleo (Syriana), produzido pelo cada vez mais influente George Clooney e seu “parceiro” Steven Soderbergh. O filme analisa a complicada rede de interesses que envolve a poderosa indústria do petróleo. Até aí parece não haver nada de tão excepcional. Entretanto, as questões levantadas pelo roteiro vão muito além de empresários sem escrúpulos e advogados desprovidos de ética. O governo norte-americano e as elites dos países do Oriente Médio também são duramente criticados.

A trama é bem difícil de ser acompanhada. Várias informações são dadas ao mesmo tempo e muitos fatos aparentemente isolados se sucedem vertiginosamente na tela. Uma grande quantidade de personagens nos é apresentada e só aos poucos vamos compreendendo os seus papéis e interesses na intrincada malha de interesses, que envolve empresas petrolíferas, agências de inteligência, a justiça americana, empresas jurídicas, fundamentalistas islâmicos, elites do Oriente Médio e o povo miserável da região. Os roteiristas partiram do princípio de que o público é inteligente e vai saber acompanhar este turbilhão de informações e preencher as lacunas deixadas propositadamente no roteiro. Talvez aí esteja a única falha desta bela produção. O nível de complexidade pode afastar o público, mais por falta de interesse do que por falta de inteligência. Se a trama fosse mais acessível provavelmente o desempenho do filme em premiações como o Oscar teria sido mais marcante.

Mas premiações não valem o sacrifício de tirar o brilho de uma obra tão singular. É exatamente na realista complexidade da trama, paradoxalmente, que se encontra também a principal qualidade da película. O espectador vai desvendando aos poucos os segredos sujos desta poderosa indústria. Vai percebendo que o discurso moralista e intransigente do governo americano destoa radicalmente de suas práticas subterrâneas covardes e intervencionistas. Percebe também que o governo dos EUA tem interesse em sustentar lideranças árabes ligadas às atividades terroristas que ele tanto promete combater. Tudo isso em nome do consumidor americano, que não pode ficar sem a gasolina para seus enormes e potentes automóveis.

Seria injusto não ressaltar a forma racional, lúcida e desprovida de preconceitos com a qual o roteiro mostra como populações árabes miseráveis são praticamente empurradas para o fundamentalismo islâmico e para o terrorismo. E o mais brilhante: a película mostra como o governo e as corporações petrolíferas americanas sustentam governos árabes irresponsáveis que condenam seu povo à miséria cada vez maior, jogando-os “no colo” de fundamentalistas e terroristas. Uma análise crítica e racional como esta é fundamental num momento em que vemos o senhor George W. Bush com sua guerra racista e demagógica contra “o terrorismo”.

Para finalizar, vou meter minhas mãos em um vespeiro. Na época do Oscar, criou-se uma grande polêmica a respeito de quem mais merecia levar o prêmio. Há os partidários entusiastas de Crash - No Limite e os inconformados com a “derrota” de O Segredo de Brokeback Mountain. Naquele momento não havia visto nenhum dos filmes, portanto não opinei. Agora, que já me emocionei bastante com as duas boas produções, diria com a maior tranqüilidade que votaria com convicção no maravilhoso Syriana. Mesmo sendo menos emotivo que os dois “finalistas” do Oscar, é mais ousado, mais contundente, mais crítico, mais relevante e, por fim, mais filme! Para não entrar em contradição com meus princípios sentimentalistas, digamos que a racionalidade crítica da referida obra é tão íntegra e necessária que acabou me emocionando!

10 Comments:

  • Grande Evandro,
    Concordo em boa parte com sua ótima resenha. A idéia do argumento de Syriana é bastante interessante. Acho que o acúmulo de informações acabam prejudicando um filme que poderia render melhor. É muito complicado de acompanhar a história. Se der uma piscada, já perdeu um fio da história. O grande destaque desta obra do Sorderbergh - que eu realcei quando resenhei o filme - foi mostrar como os terroristas seduzem jovens para seus atentados. Aquelas cenas são medelares. Um forte abraço! Bom fim de semana.

    By Blogger Marco Santos, at 10:33 AM  

  • Grande Marco, realmente este filme tem sacadas geniais, tornando-se mais que obrigatório apesar do seu roteiro bem complexo, que exige máxima atenção.

    By Blogger Evandro C. Guimarães, at 6:45 PM  

  • Concordo com vc Evandro mas faltou ao roteiro e a direção de Stephen Gaghan um pouco mais de dinâmica, assim o resultado seria mais contundente e forte.

    By Anonymous paulo jr., at 11:43 PM  

  • concordo com quase tudo.
    Melhor filme é esticar a baladeira demais (expressao nordestina de forçar a barra). Como vc mesmo percebeu, tem suas falhas, que comprometem muito o entendimento do roteiro. Um pouco mais de cuidado na direcao ajudaria. Mas sem duvida é um bom filme.

    By Anonymous Jedi, at 11:41 AM  

  • Depois daquela refilmagem soporífera de Solaris e das tolinhas armações da gangue de Danny Ocean, finalmente a dupla Clooney & Soderbergh entregam um filme relevante! Ainda não assisti, mas, diante de tantos elogios, pretendo conferi-lo na primeira oportunidade. E o nosso amigo Bashir, está bem na fita?

    By Blogger Paulo Assumpção, at 7:04 PM  

  • Acho Syriana pior que Brokeback Mountain e que Crash. E isso porque nem gosto do primeiro e acho o segundo razoável.

    By Anonymous Gabriel Carneiro, at 7:34 PM  

  • Syriana é realmente um belíssimo filme. Pena o Oscar ser a festa do "Politicamente correto". Estou passando para avisar que a partir de agora tem texto meu no reacaocultural.blogspot.com (um projeto no qual estou envolvido). Quiser dar uma conferida, fique à vontade! Abraços do crítico da caverna cinematográfica.

    By Anonymous Roberto Queiroz, at 10:35 AM  

  • O filme Syriana é bem dinâmico, Paulo jr. Não sei se faltou dinâmica ao roteiro.
    Realmente, Jedi, para entender o filme é necessário muita atenção. Mas, se o roteiro fosse menos complexo, não trabalharia tantas questões interessantes.
    O "Bashir" fica bem na fita, sócio. Só o seu destino no filme que não é dos mais felizes.
    Na realidade, Gabriel, o objetivo do texto não é comparar Syriana com Brokeback e Crash. Isto foi apenas uma temeridade que cometi no último parágrafo. O verdadeiro objetivo é chamar a atenção para esse filme irretocável, relevante, inteligente e refinado.
    Realmente, Roberto, pena que o Oscar é o prêmio do politicamente correto. Diria também que é o prêmio do "não vamos afrontar claramente o governo, só fazer umas piadinhas pseudocríticas".

    By Blogger Evandro C. Guimarães, at 10:31 PM  

  • Temos essa característica em comum, de apreciar a emoção genuína ao assistir a um filme. Filme seco demais, por vezes, não dá "liga". Interessante saber esses detalhes de cada um.

    Por mais interessante e fértil que seja a discussão proposta por Stephen Gaghan em SYRIANA, ela não foi suficiente para trazer o filme aos cinemas do interior paulista. Mas depois desta veemente recomendação, a locação está garantida.

    Cumps.

    By Blogger Gustavo H.R., at 11:01 PM  

  • É bom saber que temos mais esta característica em comum, Gustavo. Creio que as nossas maiores discordâncias atendem pelo nome Spielberg. hehe!
    Assista Syriana. A sua trama aprincípio complicada é muito enriquecedora.

    By Blogger Evandro C. Guimarães, at 11:35 AM  

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